Anatel retoma debate sobre taxa de rede para big techs com nova tomada de subsídios

13 de março de 2026

por Luis Osvaldo Grossmann

Anatel retoma debate sobre taxa de rede para big techs com nova tomada de subsídios

A Anatel vai reabrir o debate sobre a contribuição financeira das grandes empresas de tecnologia ao financiamento das redes de telecomunicações. O conselheiro Edson Holanda, relator do tema na agência, assinou nesta quinta, 12/3, um ofício para que a área técnica realize uma terceira tomada de subsídios que inclui elementos complementares ao processo já em andamento, sinalizando que a agência quer avançar no tema após um período deliberado de distensionamento das relações com as big techs.

 

“Seja fair share, seja qual for o nome que for dado, a gente precisa avançar”, afirmou Holanda. O conselheiro explicou que a abertura anterior do processo havia ocorrido em um momento de alta tensão, marcado pelo tarifaço do presidente Donald Trump e pelo acirramento das relações entre os Estados Unidos e outros países. A estratégia adotada foi primeiro promover um diálogo. “Chamei todas, esteve aqui Netflix, Meta, recebi umas 20 empresas. Fizemos um diálogo e a coisa se acalmou”, disse. Com o ambiente mais propício e uma orientação explícita do presidente da Anatel, Carlos Baigorri, para avançar, a nova rodada foi desencadeada.

 

O ofício de Holanda, endereçado às superintendências de Planejamento e Regulamentação, Competição, Relações com Consumidores e Controle de Obrigações, solicita a coleta imediata de informações com prazo de 90 dias para respostas. O documento abrange duas frentes principais: as práticas comerciais dos Serviços de Valor Adicionado oferecidos pelas operadoras em conjunto com planos de telecomunicações e uma análise detalhada do tráfego gerado por plataformas OTT — do inglês ‘over the top’, que são serviços entregues pela internet, como streaming de vídeo e chamadas online.

 

Na dimensão que toca diretamente as big techs, o ofício pede um levantamento padronizado do volume de tráfego por tipo de interconexão, a quantificação do tráfego trocado dentro do Brasil via cache ou redes privadas, a avaliação do crescimento do tráfego de vídeo em alta resolução e o mapeamento de eventos de congestionamento atribuíveis ao tráfego OTT. O documento também pede informações sobre a localização dos pontos de presença de redes de distribuição de conteúdo, os contratos vigentes com plataformas e os impactos operacionais sobre as redes das operadoras.

 

O presidente da Anatel, Carlos Baigorri, já adiantou, porém, que a proposta costurada até aqui pela área técnica não prevê uma taxa de rede nos moldes do fair share defendido pelas teles europeias. O tratamento na Anatel foi de discutir um regulamento de deveres dos usuários, com obrigações para aqueles que forem considerados “grandes”. Por enquanto, a agência discutiu limites de uso das redes e boas práticas a serem adotadas por quem ultrapassá-los, como técnicas de gerenciamento de tráfego e implantação de redes de distribuição de conteúdo. Caso esses limites sejam superados sem a adoção das medidas previstas, as operadoras terão o direito de reduzir a velocidade ou até bloquear os serviços infratores. Mas tudo isso ainda é exercício teórico.

 


A distinção é relevante porque o modelo de taxa direta enfrentou resistência significativa em outros países. Na Coreia do Sul, onde chegou a ser implementada uma cobrança semelhante, os resultados foram considerados insatisfatórios. A própria segunda tomada de subsídios da Anatel, conduzida pela superintendência de planejamento, já havia incluído no documento de referência a um estudo do BID que questiona a alegação das operadoras de que faltam recursos para expandir as redes.

 

leia

também