Quebrar para crescer dá Nobel

12 de novembro de 2025

por Redação The Shift

Quebrar para crescer dá Nobel

Até duzentos anos atrás, o crescimento econômico sustentado não era uma garantia para o mundo. A estagnação foi a norma durante a maior parte da história da humanidade. Mas é a combinação da inovação, da tecnologia e da ciência aplicada que, desde a Revolução Industrial, tira um grande número de pessoas da pobreza e gera as bases da nossa prosperidade, com uma troca constante de novos produtos e métodos de produção.

 

Em 2025, o Prêmio Nobel de Economia, concedido ao holandês Joel Mokyr, professor da Northwestern University, nos EUA, e da Eitan Berglas School of Economics, em Israel; ao francês Philippe Aghion, professor no Collège de France e no INSEAD, na França, e na London School of Economics, no Reino Unido; e ao canadense Peter Howitt, professor na Brown University, no Canadá, celebra exatamente as teorias que ajudaram a explicar as bases do crescimento econômico impulsionado pela inovação.

 

Os três mostraram, por caminhos diferentes, que o segredo está na inovação contínua e na renovação estrutural da economia: a tal “destruição criativa” que transforma conhecimento em progresso, qualidade de vida, saúde e prosperidade.

 

 

De onde vem o crescimento sustentado

 

Por séculos, a humanidade viveu sob uma economia de estagnação. Mesmo com invenções importantes, o bem-estar médio pouco mudava. O salto aconteceu a partir da Revolução Industrial, quando o conhecimento científico e o saber prático começaram a se alimentar mutuamente. Mokyr chama isso de “conhecimento útil”, dividido em dois tipos:

  • Proposicional — entender por que algo funciona (as leis e princípios científicos);
  • Prescritivo — saber como fazer funcionar (as técnicas e métodos práticos).

A combinação desses dois saberes criou um ciclo virtuoso: a ciência explica e a técnica aplica, gerando novas descobertas e tecnologias que retroalimentam o processo. Para Mokyr, esse ciclo só prospera em sociedades abertas à mudança, capazes de aceitar que cada nova invenção destrói estruturas antigas — um preço necessário para o progresso.

 

A lógica da destruição criativa

 

Philippe Aghion e Peter Howitt traduziram esse processo em um modelo econômico rigoroso. Em sua teoria de crescimento por destruição criativa, empresas competem ao inovar: quem cria um produto melhor ou um processo mais eficiente sobe “a escada” do mercado, substituindo quem estava no topo. Essa competição constante gera crescimento, mas também desequilíbrio — empregos desaparecem, empresas fecham, novas surgem.

 

O modelo mostra que o crescimento depende do equilíbrio entre incentivo e renovação. Monopólios temporários — protegidos por patentes, por exemplo — estimulam o investimento em pesquisa. Mas se a concentração for excessiva, a inovação diminui. Se a destruição for rápida demais, os efeitos sociais se tornam insustentáveis. Aghion e Howitt propõem políticas que mantenham o dinamismo, mas com mecanismos de transição — como o apoio a trabalhadores deslocados, em vez da proteção de empregos obsoletos.


Conceitos-chave das teorias premiadas

 

  1. Destruição criativa — a substituição constante de tecnologias e empresas como motor do crescimento.
  2. Conhecimento útil — o elo entre ciência e prática que alimenta a inovação contínua.
  3. Abertura institucional — a importância de sistemas políticos e sociais que aceitem o novo e reduzam barreiras à mudança.
  4. Equilíbrio competitivo — a regulação necessária para evitar tanto o excesso de concentração quanto a estagnação.
  5. Flexicurity — proteger pessoas, não cargos, em um mercado em transformação.


 

Por que isso importa hoje

 

O que Mokyr, Aghion e Howitt descreveram para o século XIX reaparece agora, em escala digital. A economia global vive uma nova onda de destruição criativa impulsionada pela tecnologia — da IA à automação de processos, da biotecnologia à energia limpa. Assim como no início da Revolução Industrial, a fronteira entre o que é ciência e o que é aplicação comercial está se tornando cada vez mais fluida.

 

O conceito de Mokyr sobre o acúmulo de conhecimento útil é especialmente relevante na era da IA. Ferramentas digitais aceleram a conversão de ideias em protótipos e produtos, ampliando a interação entre conhecimento proposicional (os modelos científicos e algoritmos) e prescritivo (os sistemas e aplicações que chegam ao mercado). Isso cria um ciclo de inovação mais rápido — mas também mais assimétrico, concentrado em poucos atores tecnológicos globais.

 

Da mesma forma, a teoria de Aghion e Howitt sobre o equilíbrio da destruição criativa ajuda a interpretar o momento atual. Grandes plataformas digitais e desenvolvedores de IA estão no topo da “escada da inovação”, com monopólios temporários que lhes permitem investir em pesquisa e dominar mercados. Mas se essa concentração se prolongar, o sistema que deveria gerar crescimento pode se fechar sobre si mesmo. A resposta política, sugerem os laureados, deve combinar incentivo à pesquisa, mobilidade social e abertura de mercado, evitando que o motor da inovação se transforme em uma máquina de exclusão.

 

O alerta final dos economistas: crescimento sustentado não é garantido. Ele depende de instituições que mantenham a circulação do conhecimento, a competição e a capacidade de adaptação. Em tempos de disrupção digital, IA e crises climáticas, isso significa reinventar a própria lógica do crescimento — equilibrando eficiência, inclusão e sustentabilidade.

 


 

Conteúdo originalmente produzido e publicado por The Shift.
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